O intento.

    Quinquilharias espalhadas devidamente organizadas repousavam em minha escrivaninha. Passei meus olhos rapidamente sobre ela e meus sentidos escapuliram fixamente a uma caixa retangular. Não me lembrava que caixa era aquela e nem imaginava o que havia dentro dela; em impulso puxei a haste para fora e espiei o interior. Havia bastões de carvão de variados tamanhos, alguns bem menores pelo gasto.

    O abrir da caixa fora como o despertar de um broto que passara anos de baixo da terra. Agora estava ali, esguio, brotando lentamente à memória de um passado áspero tal qual a textura do desenho a carvão. Era o ramalhar bicudo na selva de ramos alongados e tardiamente podados. Crescia-me a angústia. Saltitante, fazia de meu ventre um salão de festas; alastrava-se pelo espaço vazio de ecos lamuriais. As lembranças a pino vasculhavam meu estômago, farejavam em busca de alimento e apoderavam-se de minha força. Célula por célula era esmagada e ingerida pela boca da faminta fome nostalgia.

    Corri até o depósito e apanhei um papel Canson. Esparramei os bastões de carvão por cima da cama, escolhi um virgem e comecei a traçar qualquer coisa que viesse de minha imaginação, qualquer coisa desconhecida fluida de minha mente atordoada. Estava ofegante, era como se eu não conduzisse meus movimentos, mas uma força muito além do passado fúnebre e do presente fungível. Bati com a mão na cabeça para ver se me acalmava, talvez a sensação da dor física fosse menos assustadora. Soltei um gemido e deixei o carvão cair. Olhei para o papel, formas tinham começado a aparecer, em uma braçada amassei o papel e atirei-o ao jardim de inverno. Suava frio e minha cabeça latejava como se quisesse expelir besteiras pelos poros enlouquecidos.

    Acordei com os olhos em um ângulo um tanto estranho. Podia ver os pés das cadeiras e a base do sofá. Estava estirada ao chão da sala. O sol começara a descer e o crepúsculo me aliviara as tensões sem fundamento. Voltei ao meu quarto, recolhi os carvões para dentro da caixa, troquei o lençol repleto de farelos a fim de me livrar de qualquer pedaçinho negro. Queria dormir e acordar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido, me deitei, mas estava completamente lúcida. Aglutinei-me em minha coberta e passei horas a fio, tecendo o emaranhado de minha mente em um tear desa-fia-dor.

   Ao sonhar…

pude ver meu intento em busca do melhor de mim pelo fiar infinito de meus passos.

                                                                                                                                               Estela.

2 comentários em “O intento.

  1. A nostalgia sempre mostra, mesmo borrada, um tempo em que fomos alguma coisa já esquecida.
    Aquela coisa que se prestou e emprestou do tempo o seu dar-se, até por fim notar o tempo levado. Algumas vezes roubado, deixando a dura sensação de perdido.
    Ele sempre vai, e passa. Só não esquece de nos dizer por esses detalhes todos, que a lembrança fica. Seja na superfície ou lá, nessas caixas que a gente deixa até empoeirar.
    Segue a busca, a grande linha que passa pelos pequenos espaços nos tornando pedacinhos de presente até chegar no agora; esse futuro sem prazo, essa demora de identidade reforçada pela esperança do algo mais.
    Que melhor seja você, em seu intento.
    Que o melhor de mim esteja também nos pequenos traços das palavras que desenho como um rascunho para caixas; todos eles com sabor de momento.

    🙂

  2. imagens vão sendo tecidas ao longo da leitura. Parece que você aponta um erro, desfaço o tear para retomá-lo logo em frente. são buscas: das memórias, da perfeição, da arte e da beleza. buscas que nunca findam. enfim, teceremos um tapete que cubra toda a casa. a que sempre será nossa, onde a amizade tem seu refúgio certo. beijos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s